Elenice tem 46 anos, alma caiçara e raízes profundas em Caraguatatuba. Foi ali, entre o mar, as ruas planas da cidade e as batalhas silenciosas da vida, que ela aprendeu cedo o significado de seguir em frente.
Aos oito anos, viveu a dor que mudaria sua história para sempre: perdeu o pai em um acidente, no instante em que ele salvou sua vida. Desde então, viver deixou de ser apenas um caminho — tornou-se uma forma de honrar o gesto de amor que a manteve aqui.
Criada pela mãe, enfrentando as dificuldades de uma vida simples, Elenice cresceu aprendendo a se virar. Bike, ônibus, chuva, sol, trabalho, estudo. A rotina era feita de esforço, disciplina e vontade de conquistar o próprio espaço.
Até que, em 2007, esse espaço ganhou rodas.
Ao sair da concessionária pilotando sua Honda CG preta, escolhida exatamente do jeito que sonhou, Elenice sentiu algo que nunca mais esqueceria: a sensação de estar voando. Não era apenas uma moto. Era o primeiro grande bem da sua vida. Sua primeira conquista real. Sua autonomia, sua liberdade, sua independência.
A CG passou a fazer parte de tudo.
Levou Elenice ao trabalho, aos estudos, aos acampamentos de fim de semana, às trilhas do litoral entre Caraguá, Ubatuba e praias escondidas como a Ponta Aguda. Carregou mochila, barraca, colchonete, histórias e sonhos. Atravessou chuva, sol, estrada de terra, trilha, balsa e até ajudou a encurtar a distância de um amor que atravessava toda semana o caminho entre Caraguatatuba e Ilhabela.
Hoje, vivendo em Ilhabela, onde a moto é quase uma necessidade de sobrevivência em meio ao trânsito da temporada e às ruas que sobem o Parque Estadual, a CG continua ao lado dela. Mesmo com carro, 4×4 e uma nova fase de vida ao lado do marido e da pousada que administram juntos, Elenice não cogita se desfazer da companheira de tantas jornadas.
Porque algumas conquistas deixam de ser objeto.
- Viraram memória.
- Viraram extensão do corpo.
- Viraram parte da própria identidade.
Para Elenice, sua CG não é apenas a moto que a levou de um lugar a outro.
É a prova concreta de tudo o que ela venceu para chegar até aqui.
“Ela simboliza uma conquista muito importante na minha vida. É o meu xodó. Não consigo imaginar ela indo embora na mão de outra pessoa.” — Elenice